Eixo temático 2026
- saladeleituraita4
- 9 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 23 de fev.

Itaboraí, com foco na Educação Digital e na Educação Antirracista
Todo ano, a SEMED estabelece um tema a fim de orientar o Projeto Pedagógico das escolas rede municipal de Itaboraí. Em 2026. o tema é "Itaboraí, com foco na Educação Digital e na Educação Antirracista".
" Nos últimos anos, as propostas educacionais da Rede de Ensino de Itaboraí foram permeadas por temáticas pedagógicas que, apesar de distintas, apresentaram um forte ponto em comum ao destacar a importância do letramento, foco fundamental ao considerarmos os objetivos dessas propostas.
Em 2026, ao revisitarmos este conceito, é impossível não destacar os ensinamentos de Magda Soares, nos quais enfatiza que o letramento é a condição de quem sabe ler e escrever e, mais além, de pôr em prática essas habilidades no contexto social, ultrapassando a capacidade meramente mecânica de decodificar palavras. “É o uso competente da leitura e da escrita em diversas situações sociais...”, defendendo que os processos de alfabetização (o aprender a ler e escrever) e de letramento (usar a leitura e a escrita) devem acontecer juntos e simultaneamente.
Termo amplo e diverso, o “alfabetizar letrando” nos possibilita pensar a alfabetização e o letramento como processos que transcendem o seu significado inicial, relacionando-os a tão emblemática frase de Paulo Freire de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra". Concebe-se que a compreensão da realidade vivida e do contexto social em que se está inserido são a base fundamental para a alfabetização, no seu sentido mais completo e efetivo. Antes de aprender a ler e escrever as letras, a pessoa já "lê" o mundo através de suas experiências, observando, interpretando e “escrevendo” sua realidade e o ambiente ao seu redor.
Assim, a leitura do mundo é vista como um processo contínuo que torna a leitura da palavra mais significativa, já que a linguagem verbal é construída a partir da apropriação da realidade. E é pela linguagem que o homem se torna um ser social.
Com base nesta ‘leitura de mundo’ e no ‘alfabetizar letrando’, não podemos deixar de enfatizar a discussão de dois pontos extremamente sensíveis ao nosso cotidiano social atual e que são hoje pauta de políticas educacionais que buscam uma escola mais engajada com a sociedade: o acesso e o uso da tecnologia e o preconceito racial. Tais questões, embora pareçam dissociadas, estão entrelaçadas, são perenes e indispensáveis na elaboração de projetos que objetivem, além de formar indivíduos competentes, ambientá-los e/ou incluí-los nos movimentos culturais e sociais contemporâneos, bem como às novas perspectivas que se abrem, quer sejam comportamentais, quer sejam relativas à modernização dos meios de comunicação, suas linguagens, seus códigos; ou à divulgação de seus direitos, ao ponto de estarem comprometidos com o desenvolvimento de uma sociedade com mais equidade, mais aberta e acolhedora às diferenças, onde o acesso ao mundo digital seja mais democrático e possa combater as práticas racistas e discriminatóriasde forma mais firme e realmente eficiente."
A Coordenação de Sala de Leitura e Espaço de Leitura e Pesquisa atua na formação continuada de professores da rede municipal de Itaboraí, no que se refere às áreas de literatura e linguagens, bem como na formação dos demais profissionais da educação do município. Além dessa atribuição, desenvolve, de forma sistemática, com aos professores articuladores dos Espaços de Leitura e Pesquisa, dois eixos temáticos discutidos anualmente a partir do texto literário: a preservação ambiental e a educação antirracista.
Para além do cumprimento das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, bem como do atendimento ao tema transversal da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) relacionado às questões ambientais, parte-se do entendimento de que a vida no planeta está diretamente condicionada à construção de relações mais respeitosas, tanto entre os seres humanos quanto destes com a natureza.
Por integrar uma rede de ensino, os projetos desenvolvidos pela Coordenação articulam-se ao tema anual definido pela Secretaria Municipal de Educação (SEMED), que, no presente ano, incorporou, além da questão racial, a dimensão tecnológica, destacando a necessidade de preparar os estudantes para as relações contemporâneas com o mundo.
Falar em uma educação que tenha como foco a Educação digital e a antirracista, é falar em uma educação que se comprometa com os letramentos, no plural. Os multiletramentos, consolidado no Brasil por Roxane Rojo, expande a ideia tradicional de alfabetização para dar conta da complexidade do mundo contemporâneo.
Em resumo, ele se sustenta em dois pilares fundamentais:
1-Multiculturalidade: O reconhecimento de que vivemos em sociedades híbridas. O letramento deve abraçar a diversidade de culturas, linguagens e valores éticos, indo muito além do cânone literário tradicional.
2-Multimodalidade: A compreensão de que os textos hoje raramente são apenas verbais. Eles integram sons, imagens estáticas, vídeos, gestos e elementos espaciais (especialmente no ambiente digital).
A Essência do Conceito
Para Rojo, ser letrado hoje não é apenas saber ler e escrever textos em papel, mas ser capaz de produzir e criticar sentidos que circulam em diferentes mídias e culturas.
"Não se trata apenas de mudar a ferramenta (do papel para a tela), mas de entender que a própria forma de significar mudou, exigindo novas capacidades analíticas e críticas do sujeito."
Diferente do letramento clássico, o foco aqui é a pedagogia da diversidade e o protagonismo do aluno frente às novas tecnologias de informação e comunicação.
Articular os multiletramentos de Roxane Rojo com o letramento racial é, essencialmente, transformar a sala de aula em um espaço de desconstrução de hegemonias. Enquanto os multiletramentos nos dão as ferramentas (mídias e linguagens), a educação antirracista fornece o propósito crítico.
Aqui estes conceitos se fundem na prática de uma educação libertadora:
1. A Multiculturalidade como Antirracismo
Rojo enfatiza que o letramento deve ser "filiado" às culturas locais e de resistência. No contexto brasileiro:
Valorização de Saberes: Significa romper com o currículo eurocêntrico e trazer para o centro as produções intelectuais, artísticas e religiosas de matriz africana e indígena.
Voz e Agência: O estudante não é apenas um consumidor de cultura, mas um produtor que usa sua própria identidade cultural para criar novos sentidos.
2. A Multimodalidade na Desconstrução de Estereótipos
O letramento racial exige que saibamos "ler" o racismo em diferentes semioses. A multimodalidade permite:
Análise Crítica da Imagem: Decompor como o corpo negro é representado em peças publicitárias, memes ou livros didáticos (muitas vezes de forma subalternizada ou hipersexualizada).

Ao analisarmos esta imagem da "Evolução", percebemos que o resultado final da evolução é um homem e branco. Inconscientemente normalizamos a etnia branca. Quando se usa a nomeclatura "macaco" para agredir uma pessoa negra, está sendo deduzido que o negro ainda não é um homem sapiens, ou seja, não é humano. Esta é uma imagem que povoa o imaginário ocidental.
Produção de Contra-narrativas: Utilizar podcasts, vídeos (TikTok/Reels) e fanzines para narrar a história do Brasil sob a perspectiva da resistência negra, utilizando o design e o som como ferramentas de poder.
3. A Pedagogia Crítica e o Design de Futuros
Rojo bebe na fonte do Grupo de Nova York, que fala sobre o "Designer" de novos significados. Na educação antirracista, isso se traduz em:

A conexão fundamental: O letramento racial não é apenas um "tema" dentro dos multiletramentos; ele é a ética que orienta o uso das múltiplas linguagens para que a diversidade não seja apenas um conceito abstrato, mas uma prática de justiça social. Trabalhamos em uma cidade negra com alunos majoritariamente negros, entender o contexto social, entender nossa história é essencial se quisermos uma educação equitativa. Precisamos ler sobre o assunto, estudar.
Nesse cenário, a obra da autora homenageada Bárbara Carine é basilar para a edificação de uma pedagogia antirracista, seja por meio de sua produção bibliográfica ou de sua atuação nas redes sociais, onde utiliza a multimodalidade digital para desconstruir o racismo cotidiano. Complementarmente, a literatura de Otávio Júnior, outro homenageado, oferece contra-narrativas indispensáveis que rompem com o cânone tradicional. Caberá a escola escolher outro homenageado, lembramos que a inclusão de intelectuais indígenas expande esse horizonte, ao propor uma reflexão ontológica sobre a simbiose entre o ser humano e a Terra.
Essa dupla dimensão — as relações interpessoais e o vínculo com a natureza — constitui a síntese de nossos projetos coletivos. Tendo a literatura como fio condutor, iniciativas como o Projeto Coral Vivo e o projeto "Palavras que ecoam mudanças: literatura como prática antirracista" buscam mitigar a urgência das questões ambientais e raciais. Para tanto, mobilizamos as tecnologias em toda a sua extensão — da manualidade ao digital — como instrumentos para a construção de uma sociedade mais justa, saudável e igualitária.
Nos vídeos abaixo, podemos observar esta relação entre homem e planeta pela visão de Nego Bispo e Aílton Krenak.Podemos observar que a cosmologia dos povos originários e quilombolas tem muito a nos ensinar sobre a temática.
Segue abaixo, o projeto oficial da SEMED de Itaboraí sobre a Feira do Livro e o Projeto 2026
Além da temática anual, a Secretaria Municipal de Educação, realiza o Projeto Feira do Livro. Para o estímulo à leitura e o processo de letramento literário, são escolhidos três autores que dialogam com a temática anual. Neste ano, foram homenageados Bárbara Karine e Otávio Júnior, por indicação da SEMED, o terceiro autor fica a critério de cada escola.
Fazem parte desta coordenação as professoras Heloisa de Souza, Rosane Rosane de Paiva Melo e Ana Paula Cruz.


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